terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O Bom Jardim não tem história


Procure na internet, com os mais sofisticados recursos ou as mais elementares palavras-chave: dificilmente encontrar-se-á qualquer referência sobre a história do Bom Jardim; em primeiro lugar, talvez porque não exista Bom Jardim; em segundo, porque simplesmente alguém ainda não se dispôs a contar a história do bairro.
Será possível uma historiografia sobre o bairro Bom Jardim? Ou ainda, será que interessa contar a história desse bairro?
É notório que ninguém costuma se identificar com lugares estigmatizados por qualquer caráter negativo, como a pobreza ou a violência, chagas que o imaginário coletivo fortalezense de há muito atribuiu ao Bom Jardim( e afinal, o que é o Bom Jardim?) mas o bairro já faz parte da nossa memória coletiva e isto, por si só, justificaria o estudo sério e conjunto dele nos mais variados aspectos, a fim mesmo de desfazer os preconceitos comuns contra ele( o bairro do "vixe", não esqueçamos)
Além disso, suspeito que o material referente à história do bairro será sempre superficial demais em vista da preocupação com aspectos muito gerais como origem do bairro, as correntes migratórias que formaram a sua população etc, etc, que se são úteis por situarem o estudioso num conjunto de informações sólidas, ao mesmo tempo revela muito pouco sobre aquilo que caracterizaria a sua singularidade.
Neste sentido, a iniciativa dos colaboradores deste blog em efetivar estudos etnográficos no Bom Jardim certamente será útil e trará valiosos subsídios para futuras e mais amplas investigações sobre o bairro, enriquecendo nosso acervo de informações e contribuindo assim para uma visão menos preconceituosa acerca do mesmo.

sábado, 20 de dezembro de 2008

UM OLHAR DE UMA CRIANÇA

AOS OLHOS DE UMA CRIANÇA A PRIMEIRA VISTA NÃO ERA ESSAS COISAS, APENAS SE VIA UMA DEVASTADORA MATA EXULBERANTE. ONDE OS CAMINHOS ERAM ESTREITOS COM PEQUENAS CASAS FEITAS DE MADEIRA COM BARRO UMA AQUI E OUTRA ACOLAR, UM RIO QUE AS SEPARAVA UMA DAS OUTRAS RIO ESSE QUE AS PESSOAS DESFRUTAVAM DOS PEIXES PARA COMER E DA ÁGUA GOSTOSA, PURISSÍMA, RESFRESCANTE E CRISTALINA PARA BANHAR-SE, HAVIA MUITOS ADULTOS, CRIANÇAS MESMO ERAM POUCAS, MENINOS E MENINAS PÉS DESCALÇAM E DESPENTEADOS, PASSAVAM A MAIOR PARTE DO TEMPO BRINCANDO. PARA ELAS ESSE LUGAR LHES PARECIA UM VALE DE SEUS SONHOS. AS ÁRVORES SERVIAM COMO TRAVES DE FUTEBOL QUE A CADA GOL COMEMORAVA-SE COM PIRUETAS E ESTRIPULIAS, NÃO EXISTIAM MALIDISCÊNCIA ENTRE ELAS.

COM O PASSAR DE O TEMPO PODIAMOS VER O DESENVOLVIMENTO DESSE BAIRRO, ÁRVORES CORTADAS A URBANIZAÇÃO CHEGANDO E AS COISAS MELHORANDO, ESCOLAS CONSTRUIDAS, E AS CRIANÇAS QUE PASSAVAM SE TEMPO BRINACANDO JÁ NÃO SE ENCONRA NA RUA.

DINÁ LIMA

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Perfil

Eu amo fezer teatro, tenho um filho lindo que se chama João Davi

DIFERENÇA DE COTIDIANO

Bem, tudo está diretamente relacionado com o nosso cotidiano desde as coisas mais simples do dia-a dia, como ir à escola todos os dias, jogar no time da escola, brincar com os colegas, tomar banho, almoçar, jantar, etc. etc. e tal.
Mas existem coisas no nosso cotidiano que às vezes não percebemos que na verdade estão ligadas à cultura de vida que temos. Coisas como: jogar futebol com os amigos no campinho de terra, beber cachaça à tardinha no bar da esquina, colocar a cadeira na calçada para conversar com os vizinhos... Isso vem dos nossos pais, foram dos nossos avós. E assim vem sendo conosco e ficará para os nossos filhos e netos. Pois faz parte da cultura do nosso bairro, do nosso povo.

Bom Jardim paradoxal




Muitas pessoas pensam que no Bom Jardim só existe violência, tráfico, assalto, prostituição,porque é isso que a mídia prega. Estão enganadas. O Bom Jardim também possui coisas boas, como: coletivismo, solidariedade, amizade e respeito.
É comum chegar ao Bom Jardim e ver pessoas na calçada conversando, falando sobre suas vidas, coisas do cotidiano. As crianças também se divertem nas ruas brincando de “bila”, brincadeira que os pais e os avós delas brincavam.Atualmente a cultura no Bom Jardim é muito forte, por causa dos grupos, movimentos, , associações, ONGs, centros, como, por exemplo, o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social),que desenvolve projetos sociais para melhorar a vida e o cotidiano das pessoas que moram no Bom Jardim e bairros adjacentes.






quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

BAIRRO OPERÁRIO

BAIRRO OPERÁRIO


É comum encontrarmos por aqui ótimos pedreiros, metalúrgi-
cos, prestadores de serviços domésticos e de muitos outros ramos da ativi-
dade humana, que de tantos, não dá para contar nos dedos das mãos, nem
mesmo se usássemos também os dos pés, tamanhas as diversidades.

As pessoas da área , no decorrer das décadas, foram se espe-
cializando em suas artes ocupacionais ou profissionais a ponto de se torna-
rem refeências .Quando alguém da Aldeota ,por exemplo, precisa de um
eletricista ou de um bom mestre de obras ,pensa logo no seu fulano ou no seu cicrano da área do Bom Jardim.

Outra grande característica que contribuíu para que eu eu visse as coisas desse modo ,além do já citado, é o grande número de pessoas que trabalham na indústria e no comércio de Fortaleza e região metropolitana.
Todas as lojas e marcas de Fortaleza têm funcionários do Grande Bom Jar-
dim. Talvez por isso os ônibus que fazem nossas linhas só andem insupor-
tavelmente lotados. As pessoas reclamam ,mas dizem:é assim mesmo ,é a vida , fazer o quê ...pobre nasceu prá levar fumo e coisas do tipo. Pois é, vir-
rou cultura o ônibus lotado, a sensação de impotência e a “eterna” vo-
cação operário de alguns.

Cadê as escolas do Bom Jardim?

Cadê as escolas do Bom Jardim


Durante o período em que estudei numa escola pública, a Escola de Ensino Fundamental e Médio César Cals, situada no bairro Farias Brito, verifiquei um fato curioso: entre os mais de 2000 alunos, grande parte destes provinha do Bom Jardim--ou pelo menos do que se convém denominar como Bom Jardim.
Achava curioso que alguém se dipusesse a sair de seu bairro, onde deveriam haver escolas, para outro tão distante a fim de estudar. Porquê aquelas pessoas dispunham-se a enfrentar horas de ônibus, onde estavam as escolas do Bom Jardim?
--"Não, lá as escolas são perigosas", dizia um colega de classe, pai pedreiro, mãe professora, olhos avermelhados da maconha que dizia fumar com moderação. Perigo. A ação de gangues fazia parte do imaginário alencarino sobre o dia-a-dia do chamado bairro do "vixe!" Mas só isto justificaria a busca tão grande dos moradores daquele bairro dos serviços de educação oferecidos por outros bairros?
Um colega do meu irmão explicava a questão de outra maneira. Não era a violência a razão da procura de escolas em outros bairrsos. Era a falta de escolas mesmo. Paradoxalmente, nas zonas centrais, as escolas públicas passavam(passam) por um acentuado processo de esvaziamento. Ainda assim, caminhando pelo Terminal do Siqueira, ao meio-dia, é ainda possível, passados já tantos anos, perceber uma fila de estudantes a esperar a condução pára mais um dia de estudos na zona central da cidade. As gangues são ainda a justificativa do abandono estudantil desse bairro ou são as escolas mesmo que ainda não são suficientes para atender a população estudantil? Séria questão, cuja origem provavelmente está na relutância do póder público em combater, por um lado, a suposta violência dos bandos de jovens armados e, de outro, a carência de vagas nas escolas públicas dobairro. Enquanto isso, mais bandos de estudantes enfrentarão horas de filas e viagens a fim de ser "alguém" na vida.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Onde começa e onde termina o Bom Jardim?

Pensado como área em algum critério, administrativo ou qualquer que seja, são vários bairros e localidades a formar o Grande Bom Jardim. E o Bom Jardim propriamente dito? Falaremos deste ou daquele?

Quando vamos falar de algo precisamos saber exatamente do quê, ou de quem, faremos referências. O bairro em si tem características comuns aos demais da área, em vários aspectos, inclusive culturais. Fato curioso é que poucos sabem ao certo o nome exato do local que habitam, chegando ao ponto de gerar diálogos controversos. Senão, vejamos: os que moram na área do Parque Santo Amaro e Parque Santa Cecília dizem que o Bom Jardim é mais embaixo, apontando para Granja Lisboa. Os de Granja Lisboa apontam para Santa Cecília e Santo Amaro, quando o assunto é onde fica o famoso BJ.

Oficialmente não existem Santa Cecília e Santo Amaro, portanto, estas duas localidades são o Bom Jardim propriamente dito, enquanto que Granja Lisboa é bairro mesmo, constando nos mapas oficiais da cidade de Fortaleza. Detalhe: muitas moradias e instituições das localidades de Santa Cecília, Santo Amaro e Granja Lisboa utilizam estes nomes ou Bom Jardim em seus endereços e contatos. Ou o Bom Jardim está cincunscrito em algum lugar ou será um bairro virtual.

Daí se conclui que as pessoas não sabem ao certo onde estão, tamanhas as afinidadse dos lugares em questão. Inclusive a Granja Portugal já estava avançando equivocadamente em direção à Oscar Araripe, fato que provocou a reação de alguns moradores, exigindo das empresas de telefonia, água e energia elétrica, o uso do nome Bom Jardim, Santa Cecília e Santo Amaro nos endereços das residências.

Concluindo: se os próprios moradores ficam empurrando o bairro para onde ele não existe, isto constitui fenômeno interessantíssimo a se entender como um fator presente na cultura do lugar.

Jesus Sabino - amigo do bairro e cientista cósmico.

Bom Jardim: uma primeira observação

A primeira referência que tive do Bom Jardim não foi a da violência. Embora à época—idos dos anos 1990-- isto fosse sinônimo do bairro, não foram as imagens explícitas—e chocantes—de corpos baleados exibidos pelos telejornais autodenominados policiais que formaram a minha imagem dele, aquele lugar perdido na "periferia"--para se utilizar de termos etnocêntricos--, mas a fala de uma colega de quarta série do extinto Instituto Domingos Sávio, escolinha de ensino elementar que localizava-se no José Bonifácio, na aula de ciências sociais, indicando à saudosa professora Nádia exemplos de "comunidades carentes" de Fortaleza.

Naturalmente fiquei confuso. Não podia associar um nome tão bonito com pobreza; porque, para mim, comunidade carente era sinônimo de pobreza. Carência não se confunde com pobreza, assim como bairro não se confunde com comunidade.

Comunidade? Não é esta utopia pequeno-burguesa o que se encontra pelas ruas do Bom Jardim. Basta observar as casas, pequenas, estreitas, portas e janelas gradeadas, contrastadas por outras grandes, altas, largas, um, dois pavimentos até, demarcando o limite entre a "burguesia" local –majoritariamente comerciantes-- e os deserdados, que observam as edificações curiosas para os parâmetros da arquitetura comum com um misto de esperança e inveja.

Falo com a ousadia do estrangeiro, turista em minha própria cidade, com a distância do Benfica ao imaginado território da violência agora generalizada e cerne das preocupações da elite e dos remediados, do estudante universitário e cidadão razoavelmente informado que aporta neste lugar repleto de preconceitos de toda ordem, disposto a não submeter minhas observações a um sentimento piegas de complacência para com aquela "pobre gente" ou caracterizá-la a fim de construir pretensos tipos ideais. O que move o estrangeiro não é a curiosidade científica mas o desejo de compreensão. Se o ceticismo, no dizer de Cassirer, é a contrapartida de um resoluto humanismo, não pretendo mostrar aos moradores do Bom Jardim quem eles são mas compreendê-los, e ao seu bairro, além das estatísticas e dos estereótipos.

À primeira vista tudo parece incompreensível. A impressão é de caos. Deveras o Barão de Hausmman revirar-se-ia na sepultura se visse aquelas ruas e calçadas estreitas, improvisos à ocupação "desordenada". Mas nada foge à lógica de qualquer criação sócio-cultural, inteligível em detalhes às vezes invisíveis aos olhos nativos, "cegos de tanto vê-los." As calçadas altas demais, algumas fazendo as vezes de alpendre, com pessoas sentadas em "prguiçosas", remetem imediatamente ao interior, origem de quase toda a antiga geração, bem evidente na curiosa combinação de calças de microfibra, camisa de manga curta, chapéu "de massa" e chinelos de borracha, que constituem o traje mais comum dos senhores mais idosos, em vivo contraste com a indumentária-padrão dos mais jovens, camiseta cavada, shorts ou bermudas, bonés e chinelos, também de borracha.

Outras influências. O "forró eletrônico" ecoa aos berros de um casebre. Os programas de rádio mais ouvidos têm nítido apelo popular, mas as novelas são paulistanas e cariocas, com tramas e personagens esquemáticos e audiência cativa. Sobretudo os jovens identificam-se com aqueles belos atores e atrizes; as meninas querem ser a Lara, apesar de serem morenas de feições indígenas; os rapazes querem imitar seus ídolos pop, deixam os cabelos maltratados crescer, tatuam-se, estampam nas camisetas seus objetos de culto, subcultura que escandaliza os mais antigos mas parece não conter qualquer ameaça revolucionária.

Não parece haver comunidade mas fortes vínculos sociais mantidos através de instituições como o apelido. Seja das conversas de calçada, de botequim ou das partidas de futebol, quase todos se conhecem, quase ninguém pelo nome de batismo. A mesma informalidade se percebe nos modos de orientação, sendo as placas das ruas pouco úteis para localizá-las. As referências são mais diretas, a "rua depois da ponte" ou "depois da feira". Caos. Utopia de comunidade. Algo singular? Provavelmente. Resta saber distinguí-lo no contexto de abandono comum à periferia de qualquer lugar. O olhar estrangeiro, ao mesmo tempo em que não goza da intimidade do seu objeto, mantém o distanciamento necessário à (sua) reconstrução da confusão aparente. Mosaico feito de instantâneos da "história subterrânea", no dizer de Gramsci.


Gabriel Petter da Penha, graduando em Geografia da Universidade Estadual do Ceará.

gabriel.petter@gmail.com