terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Bom Jardim: uma primeira observação

A primeira referência que tive do Bom Jardim não foi a da violência. Embora à época—idos dos anos 1990-- isto fosse sinônimo do bairro, não foram as imagens explícitas—e chocantes—de corpos baleados exibidos pelos telejornais autodenominados policiais que formaram a minha imagem dele, aquele lugar perdido na "periferia"--para se utilizar de termos etnocêntricos--, mas a fala de uma colega de quarta série do extinto Instituto Domingos Sávio, escolinha de ensino elementar que localizava-se no José Bonifácio, na aula de ciências sociais, indicando à saudosa professora Nádia exemplos de "comunidades carentes" de Fortaleza.

Naturalmente fiquei confuso. Não podia associar um nome tão bonito com pobreza; porque, para mim, comunidade carente era sinônimo de pobreza. Carência não se confunde com pobreza, assim como bairro não se confunde com comunidade.

Comunidade? Não é esta utopia pequeno-burguesa o que se encontra pelas ruas do Bom Jardim. Basta observar as casas, pequenas, estreitas, portas e janelas gradeadas, contrastadas por outras grandes, altas, largas, um, dois pavimentos até, demarcando o limite entre a "burguesia" local –majoritariamente comerciantes-- e os deserdados, que observam as edificações curiosas para os parâmetros da arquitetura comum com um misto de esperança e inveja.

Falo com a ousadia do estrangeiro, turista em minha própria cidade, com a distância do Benfica ao imaginado território da violência agora generalizada e cerne das preocupações da elite e dos remediados, do estudante universitário e cidadão razoavelmente informado que aporta neste lugar repleto de preconceitos de toda ordem, disposto a não submeter minhas observações a um sentimento piegas de complacência para com aquela "pobre gente" ou caracterizá-la a fim de construir pretensos tipos ideais. O que move o estrangeiro não é a curiosidade científica mas o desejo de compreensão. Se o ceticismo, no dizer de Cassirer, é a contrapartida de um resoluto humanismo, não pretendo mostrar aos moradores do Bom Jardim quem eles são mas compreendê-los, e ao seu bairro, além das estatísticas e dos estereótipos.

À primeira vista tudo parece incompreensível. A impressão é de caos. Deveras o Barão de Hausmman revirar-se-ia na sepultura se visse aquelas ruas e calçadas estreitas, improvisos à ocupação "desordenada". Mas nada foge à lógica de qualquer criação sócio-cultural, inteligível em detalhes às vezes invisíveis aos olhos nativos, "cegos de tanto vê-los." As calçadas altas demais, algumas fazendo as vezes de alpendre, com pessoas sentadas em "prguiçosas", remetem imediatamente ao interior, origem de quase toda a antiga geração, bem evidente na curiosa combinação de calças de microfibra, camisa de manga curta, chapéu "de massa" e chinelos de borracha, que constituem o traje mais comum dos senhores mais idosos, em vivo contraste com a indumentária-padrão dos mais jovens, camiseta cavada, shorts ou bermudas, bonés e chinelos, também de borracha.

Outras influências. O "forró eletrônico" ecoa aos berros de um casebre. Os programas de rádio mais ouvidos têm nítido apelo popular, mas as novelas são paulistanas e cariocas, com tramas e personagens esquemáticos e audiência cativa. Sobretudo os jovens identificam-se com aqueles belos atores e atrizes; as meninas querem ser a Lara, apesar de serem morenas de feições indígenas; os rapazes querem imitar seus ídolos pop, deixam os cabelos maltratados crescer, tatuam-se, estampam nas camisetas seus objetos de culto, subcultura que escandaliza os mais antigos mas parece não conter qualquer ameaça revolucionária.

Não parece haver comunidade mas fortes vínculos sociais mantidos através de instituições como o apelido. Seja das conversas de calçada, de botequim ou das partidas de futebol, quase todos se conhecem, quase ninguém pelo nome de batismo. A mesma informalidade se percebe nos modos de orientação, sendo as placas das ruas pouco úteis para localizá-las. As referências são mais diretas, a "rua depois da ponte" ou "depois da feira". Caos. Utopia de comunidade. Algo singular? Provavelmente. Resta saber distinguí-lo no contexto de abandono comum à periferia de qualquer lugar. O olhar estrangeiro, ao mesmo tempo em que não goza da intimidade do seu objeto, mantém o distanciamento necessário à (sua) reconstrução da confusão aparente. Mosaico feito de instantâneos da "história subterrânea", no dizer de Gramsci.


Gabriel Petter da Penha, graduando em Geografia da Universidade Estadual do Ceará.

gabriel.petter@gmail.com

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